‘Torto Arado’ inspirado em ‘Encantado’, espetáculo de dança de Lia Rodrigues – 16/03/2022 – Ilustrada

Uma obra para 140 cobertores e 11 bailarinos. Essa é uma das frases repetidas pela coreógrafa e diretora Lia Rodrigues para falar sóbrio “Encantado”. A criação mais recente de sua companhia estreou num festival no ano passado em Paris e inicia sua primeira temporada no Brasil nesta quinta-feira, no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Arrumados no palco quase como uma tapeçaria, os cobertores escondem corpos. Ao se désenrolar como uma jiboia, os bailarinos, até então invisíveis e isolados, podem ser suas cobertas e se reencontram. No final, estão todos embolados num grande corpo coletivo.

Os painéis cobertores por um processo de criação muito usado Rodrigues, não qualificam colecionam e os intérpretes-criadores imagens até ser formado um grande que orienta e dá sentido ao espetáculo.

Quando “Encantado” começou a ser criado, Rodrigues viu uma fotografia de um morador de rua enrolado em seu cobertor. “Não dava para ver a pessoa, nem se era uma pessoa, se via apenas a forma de um ser. Achei um cobertor na mala de figurinos de ‘Fúria’ [criação anterior, que será apresentada no mesmo programa do Sesc] e conta a diretora trabalhar com esse material”,

Não madureira mercadão, na zona norte do Rio de Janeiro, foram comprados mais cobertores, todos muito baratos e coloridos, com carimbos de flores, tigres, pele de onça. Com os produtos, os mesmos compradores de ONGs para serem doados a pessoas vivendo em situação de rua, conforme as imagens começaram a ganhar corpo e movimento.

Rodrigues também parte de alguns livros para criar seus espetáculos. “Encantado” ganhou esse nome depois da leitura de Torto Arado de Itamar Vieira Júnior. A terceira parte do livro é narrada por uma dessas entidades, os encantados. “This Afro-Ameríndia cosmogonia que me formam a pensar como criar seres comunidades e ‘descombinem’ para diferentes”, diz Rodrigues.

Como as imagens puxam a outra, e uma leitura como os da filósofa e bióloga Donna Harawayautor de “O Manifesto das Espécies Companheiras”, estudos de antropologia e ciência ou vídeos como conversas do ciclo de estudos orientados por Ailton Krenak na plataforma Selvagem.

No espetáculo, essas referências não perdem a forma óbvia e reconhecível, como com a imagem do homem não confirmador. “A gente passa por um livro e ele nos lance no mundo, abre um juntos. No palco, escrevemos uma nova ficção”, diz Rodrigues.

Segundo ela, fica sem pensar na crise também a combater o trabalho pela Covid-19 e não especificamente, seus territórios no local onde trabalha –a favela carioca onde a sua companhia e escola livre de dança do centro de dança do centro artes Redes da Mare.

No início da pandemia, a Redes lançou o movimento Maré Diz Não, o centro de artes onde a companhia ensaia se tornou o núcleo físico da campanha. Toneladas de alimentos e produtos de higiene para distribuição séria a mais de 17 mil famílias foram armazenados no lugar. Em momento dado, o teto começou a ruir por causa das chuvas fortes. A reforma do projeto iniciado quando Rodrigues, que permanecera mais de um ano na Europa, voltou ao Brasil para o trabalho presencial com os bailarinos.

“Tínha só uma cortininha separando milhares de pessoas no trabalho e saitdo do centro, os caminhões transportando as doações.

Esse encantamento, nas palavras dela, acontece com trabalho coletivo e apoios. Além da parcelaria com a Redes da Maré, uma empresa teve patrocínio de cerca de 20 instituições para produzir o espetáculo e poder continuar pagando bailarinos pendentes da fase da pandemia. No Brasil, uma única instituição que tem apoiado o grupo é o Sescsegundo a diretora.

Artista associada ao Teatro Nacional de Dança e ao Centquatre Paris, Lia Rodrigues fé uma das criadoras em destaque na 50ª edição do Festival outono, realizado na capital francesa no ano passado. Os artistas para os “retratos”, ou retratos, costumam apresentar obras significativas de sua voyageória, mas Rodrigues escolheu diferente –convidou varios dançarinos brasileiros para se apresentarem na parte da programação do festival dedicado ao seu nome.

“Pensei em uma constelação ou mosaico. Quais vozes precisam ser ouvidas, diferentes da minha, mas que eu não vou continuar? desmantelamento da cultura no Brasilé importante o mercado europeu conhecer obras de artistas brasileiros, abre oportunidades de trabalho.”

“Encantado” fé a obra de Lia Rodrigues Companhia de Dança criada para estrear no festival parisiense, em dezembro do ano passado. Durante o processo de criação, o espetáculo surgiu um caminho de criação para a coreógrafa.

No final, a dance se uma grande celebração. usado por Paulo Freire, ‘esperançar’, que é mas do que esperar. É construção, de se juntar aos outros, levar adiante. Uma música está encantada que leva você adiante.”

Na trilha, composta e mixada com Alexandre Seabra, são usados ​​trechos de músicas do povo guarani mbya cantadas Durante a marcha dos povos indígenas contra o marco temporal, realizada no ano passado, em Brasília. “Caminhemos sem impedimentos/ Vamoshemos respeitar a força dos grandes guarani mbya/ fazer ouvir nosso canto”, diz a letra, que segundo, cantada em looping no espetáculo, “ajuda a gente se encantar”, Rodrigues.

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