‘Prefiro o livro ao filme’, diz Scarpa, crítico literário do Palmeiras – 13/08/2021 – Esporte

Na melhor fase de sua carreira futebolística, aos 27 anos, Gustavo Scarpa tem feito a alegria dos palmeirenses dentro de campo. Já fora das quatro linhas, ele tem torcedores surpresos de qualquer hora. Os primeiros vão poder curti-lo na importante partida deste sábado (14), às 19h (Brasília), quando o Palmeiras viajar para pegar o-MG (com transmissão do canal Atlético Premiere) em busca de liderança do Brasileiro.

Quanto aos outros torcedores, é a faceta literária de Scarpa que tem chamado a atenção. Ele se diferencia do que se espera de um jogador de futebol brasileiro ao ter se tornado, nos últimos quatro anos, um ávido de leitor de literatura cabeça. E bota cabeça nisso.

Franz Kafka, Albert Camus, Isaac Asimov, Ernest Hemingway. A lista é longa e altamente qualificada A. E, interessante, Scarpa comentou sobre os livros que lê em sua conta no Instagram (@gustavoscarpa10). Produto de seu tempo, usa o típico linguajar das redes sociais do século 21.

“Maneirooooooo. Mlk inseto”, sóbrio escritor “A Metamorfose” (1915), tcheco do Franz Kafka (1883-1924), um autor muito autoritário mas importante back do seculo passado. “Mlk”, para quem não ouviu a língua das redes sociais, pode ser lido como “maluco” ou, neste caso, “moleque”.

“As pessoas realmente ficaram surpresas quando eu comentei Kafka. Li também ‘O Processo’ [1925], esses foram bem no começo. Hoje minha biblioteca está com 90 livros lidos. Guardo e não empresto. Sem chances”, contabilização ele, que completou apenas o médio e revela já possuir ouros 90 títulos esperando sua vez na fila.

“O primeiro que li nessa fase fé a biografia de Steve Jobs [2011]que minha tia deu no Natal de 2017. Gostei para caramba”, recorda Scarpa, nascida em Campinas, mas criada em Hortolândia, no interior de SP.

Andorinhas de Campinas, Estrelinha de Jaguariúna, Rio de Branco de Amparo e Escolinha Bola de Ouro de Hortolândia. Foi em Campinas que Gustavo iniciou seus tratos com a bola, acompanhando seu pai, o seu Zezo, que treinava no clube Andorinhas. Depois, no futebol de salão do Guarani, passou a disputar campeonatos estaduais. Dos 9 aos 13 anos, jogou em várias vezes concomitantemente, como esses citados acima.

Jack London, Harper Lee, Emily Bronte, Maquiavel. Não foi só o futebol que o vendedor de esquadrias seu Zezo trouxe para a vida do pequeno Gustavo. Também trouxe uma leitura. “Desde pequeno, ele colocava filmes legendados para mim e minha irmã”, diz ele, que credita a esse hábito a facilidade que tem hoje para as letras. Por outro lado, Scarpa nunca fé do jogo.

Antes de ganhar aquele presente da tia, ouve outro momento de interesse pela leitura. Fé em 2009, quando você rapaz passou a se interessar mais pela religião evangélica e passou a ler a Bíblia. Esse é um hábito que ele não largou. Entre os 90 livros já lidos, a boa parte é de autores e de livros religiosos. Aos domingos, quando não tem jogo, Scarpa frequenta a igreja.

Guarani, Santos, Fluminense, Palmeiras. Na época em que leu a Bíblia, Scarpa tinha 15 anos e já havia passado pelo sub 13 do Santos, pelo Paulínia e estava no Desportivo Brasil, de Porto Feliz, onde começou a se destacar e ficou a completar 18 anos, quando se profissionalizou.

Passou uma temporada de cinco anos no Fluminense e chegou ao Palmeiras quando tinha 24 anos. Foi aí que as portas da percepção se abriram para Gustavo Scarpa. “Nosso preparado físico livros era o Pedro Jatene, que passou a me dar alguns e indicar outros”. O primeiro título que ganhou de Jatene foi “O Médico e o Monstro” (1886), de Robert Louis Stevenson.

Machado de Assis, Mary Shelley, Anne Frank e George Orwell. Achou muito maneiro. “Depois li as ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’ [1881] e ‘Dom Casmurro’ [1899]do Machado de Assis, ‘Caninos Brancos’ [1906, de Jack London] e ‘Revolução dos Bichos’ [1945], que é um dos meus preferidos. Do George Orwell, também o ‘1984’ [1949].”

Scarpa não lê muito em casa. O tempo de leitura normalmente é o da viagem para outros estados ou países ao lado dos colegas de Palmeiras. “Leio muito em avião, no quarto, na concentração. Às vezes, até no vestiário antes do jogo, eu dou uma lida.” Scarpa, no entanto, se furta de ficar em cima dos porqueiros para apresentar os livros que ama. “Já presenteei alguns, mas não fico enchendo o saco, né?”

Victor Hugo, Philip K. Dick, Dostoiévski e Shakespeare. “Me tornei uma pessoa que nunca achei que me tornaria”, diz. “Aquela que prefere o livro ao filme. Os amigos vivem me dizendo ‘mas você não prefere o filme? Tem imagens, dá para ver em vez de só imaginar’. Bom, fugira para assistir algumas filmagens de livros que eu tinha lido. ‘O Caçador de Pipas’, achei fraquíssimo. Fiquei inconformado. ‘O Clube da Luta’, não gostei. ‘Os Miseráveis’, então, nem se fala! Fizera um musical, cara, achei triste”.

Falando em música, os talentos de Scarpa também chegam à guitarra. “Aprendi o violão, bem básico. Se eu disser as duas músicas que sei tocar, vai parecer que sou um monstro. É ‘Sultans of Swing’, do Dire Straits, e ‘Stairway to Heaven’, do Led Zeppelin. Mas são em versões bem simples, nem sei os solos. Na verdade, sei o primeiro solo de ‘Sultans of Swing’, fiquei muito emocionado quando aprendi. Gosto de louvor, rock e rap”, resume.

Scarpa já aceita como 1.000 páginas de “Os Irmãos Karamázov” (1880) e como 600 de “Crime e Castigo” (1866), o que, definitivamente, não é para qualquer um. Também se engalfinhou com “Hamlet” (1603), o príncipe da podre Dinamarca.

“Oh, estado abjeto e vil, coração negro e lúgubre, alma atolada, que se agita para escapar, mas se entra na Índia mais. Venham, anjos!”, transcreveu o jogador em seu Instagram. E completou: “Achei a história sem graça, mas tem partes e frases legais kkkkk”.

Melhor sorte para o bardo inglês na próxima vez. Quanto aos palmeirenses, não precisam se preocupar. Gustavo Scarpa já está junto deles.

O crítico futebolista

Leia comentários de Scarpa publicados no Instagram

“Dom Casmurro”, de Machado de Assis – “Traiu kkkkkkkkk”

“A Revolução dos Bichos”, George Orwell – “Livro bem maneiro. Uma sátira interessante. Outra época e pá, mas maneiro. Garganta e Maricota me estressaram fiiiiirme kkkkk”

“Breves Respostas para Grandes Questões”, de Stephen Hawking – “A viagem no tempo é possível? Legal esse capítulo”

“O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway – “Em maio, todos podemos ser pescadores. Currrrrrti”

“A Metamorfosis”, de Franz Kafka – “Maneirooooooo. Mlk inseto”​

“Steve Jobs”, de Walter Isaacson – “Fenômenoooo”

“Caninos Brancos”, de Jack London – “Livro muitooooo bãaaaooo”

“O Sol É para Todos”, de Harper Lee – “Um dos livros mais legais. Bao demaisss”

“O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë – “Romance meio esquisito, angustiante, mas da hora kkkkk”

“Virando Séculos – A Corrida para o Século 21”, de Nicolau Sevcenko – “Muito maneiro!!!”

“Frankenstein”, de Mary Shelley – “Nunca imaginei que essa história fouse desse jeito. Muitooooooo bom”

“Eu, Robô”, de Isaac Asimov – “Muitooooo maneiro. Histórias de dorsssssssssssss

“O Príncipe”, de Maquiavel – “Curtiiiiii esse aqui. Não achei tão polêmico como falaram”

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