Pedro Abrunhosa ao vivo no Campo Pequeno. A música é rebeldia, escutá-la é um ato político

Num artigo de opinião publicado no jornal “Los Angeles Times”, em julho de 2021, um cronista Robin Abcarian função um ponto interessante: a forma como, Durante a pandemia, a nossa noção de tempo se alterou, acelerando para uns, travando para outros, até já não conseguirmos situar – 2019 parece, simultaneamente, ter sido ontem e há uma década. O mesmo poderia ser válido para Pedro Abrunhosa, e álbum para “Viagens”, que foi lançado principalmente em 1994, comumente considerado como um dos melhores álbuns português da década de 90. porque a fé ontem que observam milhares de pessoas (estive entre elas) a dançar ao som de ‘Não Posso Mais’, ‘Somos Corro’ ou (incluído não em “Viagens” mas no EP”, editado um ano depois) ‘Talvez Foder’, esta O último por entre o chocque ruborizado do cavaquismo e o delírio da Geração Rasca.

Enquanto isso, Pedro Abrunhosa envelhecendo a fé. Editou um disco intitulado (lá está!) “Tempo”, colaborou com nomes como Carla Bruni, Ana ou Lucinda Williams, apresentou-se no palco, tal como nesta noite no Campo Pequeno, com orquestras, e não aconteceu que essa palavra – envolver – tomasse conta de si com uma simbologia negativa ela costumar, mesmo que seja aparente como velhos são os trapos Onde é como o vinho do Porto.

Durante a pandemia, o tempo não o travou; Abrunhosa foi dos primeiros a dar concertos online Durante o período de confinamento, organizou espetáculos em formato dirigir em, e manteve voz contra o estado atual de coisas com a frontalidade que lhe é reconhecida. O seu mais recente alvo, Vladimir Putin e a guerra na Ucrânia, iluminou-lhe a arte: ‘Que O Amor Te Salve Nesta Noite Escura’, single lanceado esta sexta-feira, fé composta em apenas duas horas e homenagemia “a incrível resistência dos cidadãos, directentes e militares ucranianos” e “a esperança que projetam, pelos atos, sobre todos nós”.

Tema de avanço para um novo álbum ainda sem título, ‘Que O Amor Te Salve Nesta Noite Escura’ pôde ser escutado logo nos primeiros minutos deste concerto em Lisboa, com a ajuda da poderosa voz da fadista Sara Correia, prestes a firmar-se no céu da música portuguesa. No ecrã de fundo, vislumbravam-se das algumas imagens mais prementes da guerra, entre casais despedindo-se abraçados e crianças a quem o presente pregou uma rasteira, e os quais podem ver, caso pode, num dos versos da canção – não é deste tempo o chão que te espera – uma mensagem de esperança em relação ao futuro. Até porque a performance termina com a palavra “paz”, com a plateia de um Campo Pequeno quase esgotado a aplaudi-la de pé.

Fá-lo-ia por diversas vezes ao longo do espetáculo, juntando de igual forma a sua voz à dos músicos presentes no palco, como em ‘Momento’ (palavra ligado ao tempo, uma vez mais!), que necessariamente conferiu a ‘Será ao início sensualidade de um certo tamanho. Aposentado a “Tempo”, o álbum, ‘Será’ constituiu o primeiro grande momento do animador Pedro Abrunhosa, que deixou a viajar pelo rock n’ roll adentro numa toada que – e porque não dizê-lo, sem medos da polícia independente – nosso fez lembrar o mais feérico dos Bad Seeds, um português encarnando um australiano. Só se apresentar ao público, com recurso a um sentido “boa noite, minha Lisboa”, ao quinto tema por concretizado, agradecendo ao público “o mais rebelde dos atos políticos”: comprar um bilhete para assistir a um concerto. De pronto nos lembramos de vários vídeos de músicos ucranianos a tocar por entre as ruínas das suas cidades, e tendemos a combinar com essa ideia de base. A música é rebeldia, escutá-la é um ato político.

Para além da Orquestra Clássica do Sul e que se aproximou do palco não só Sara Correia como também João Barradas, que emprestou o seu acorde de nós, Carolina começou por conferir um tom angelical a ‘Leva-me P’ra Casa ‘, tema composto a pensar (e dedicado aos) pais que pensar em um filho, pontuado por um solo estratosférico de guitarra. ‘Vendeu-se a novidade de AMOR’, da qual nem sequer um quarto possível pela edição de novidades ou que o seu, foi outro álbum das novidades desteG, que novo ano de novidade por AMOR (que ainda não foi dado a um novo título). “Antigamente eu começava as discotecas pelo nome, agora sou mais modesto”, brincou.

Mesmo que sejam poucos, e sobretudo os noticiários, lembrem-se que poucos milhares de quilômetros há bombas que rebentam, sempre haverá espaço para a boémia. ‘É preciso ter calma’, banda-sonora, só teve um problema de noites transviadas: não dá para se gingar, e nas filas da frente poucas ou nenhuns se atreveram a levantar-se para dançar. Mas contido, mas trip-hop, ‘Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar’ veio acoplada da explicação para uma coreografia simples (dois toques no peito e um braço que navega), que envolve uma segurança da Indústria, mítico espaço da noite portuense . A Invicta fez-se ainda representar por ‘Vem Ter Comigo Aos Aliados’, que em maio pode ter outro sabor para uma boa parte da população portuguesa.

O tempo dura aquilo que quisermos

Num concerto de quase horas – sem que no final tenhamos detectado uma única gota de suor no rosto de Abrunhosa, o que ou é impressionante ou três vistos distraídos –, um dos momentos de ebulição deu-se a meio com ‘Fazer Ainda não foi feito quando o músico pede pela primeira vez ao público que se erga das suas cadeiras de forma a assaltar essa alegria imensa que é estar vivo. De ‘Não Desistas de Mim’ destaca-se a lentidão com que foi ardendo, perto do fim, já Abrunhosa tinha abandonado ao palco e permitido ao seu Comité Caviar um ar da sua própria graça, o teclado rumando contra a maré da conclusão, a bateria explodiu de repente, cósmica. Porque o tempo durou aquilo que quisermos.

Quem ama a euforia funk teve em ‘Não Posso Mais’ um tomada de vivacidade, e o puro R&B de ‘Rei do Bairro Alto’ levou a Marcelo Rebelo de Sousa, figurada nas cadeiras em frente ao palco, a levantar-se e arriscar alguns movimentos de corpo – “porque estamos a precisar de elevar o país” , conforme lhe pediu Abrunhosa, que não se poupou em elogio ao atual Presidente da República, “um exemplo claro de serviço no combate ao ódio, venha ele de onde vier”. Afeto pelo Presidente, e afeto pela democracia, que ultrapassou esta semana a marca assinalável de 17 mil e 500 dias. Com um “viva o 25 de Abril” estava dado o mote para a saída de cena, não sem que ‘Ilumina-me’, com Sara Correia e Carolina Deslandes lado a lado, provocasse um tsunami de lanternas do telemóvel no Campo Pequeno.

Não novamentepoder-se-se sempre necessário’Socorro’, desta feita foi só quase imprescindíveis: as flutuações rítmicas e o refrão apresentado num tempo Distinto da gravação original retiradaam-lhe alguma força, que foi recuperada com uma interpolação de ‘Stayin’ Alive’, dos Bee Gees e esse do clássico discoteca. ‘L’, logo a seguir uma – especificação de volta encetar olímpica pelo Campo Pequeno. E, antes de terminar com ‘Tudo O Que Eu Te Dou’, mais uma graçola de menino travesso: “esta é a última, que os senhores têm ir para a cama…”, orientações não só para Marcelo Rebelo de Sousa como para a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, e para o Ministro da Economia, o amigo Pedro Siza Vieira. Se no ecrã voltou a reinar a palavra “paz”, na noite reinou Pedro Abrunhosa, alguém que não deixa de sonhar com o futuro, mas que parece preferir, invariavelmente, o presente. E quem vive no presente não perde a sua coroa.

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