Oscar, apesar de tapa de Will Smith, não chegou a todos – 28/03/2022 – João Pereira Coutinho

Pobre Oscar. Ninguém quer saber mais dele. Eis a tese de artigos contáveis ​​publicados antes da premiação. O ibope do show tem sido miserável. Os filmes indicados não fazem sucesso na bilheteria. Como explicar esse naufrágio?

Fiz uma experiência. Perguntei a amigos, familiares e colegas qual fé o melhor filmes a que assistiram esse último ano. Quase ninguém deu a mesma resposta —e, entre as respostas, nenhuma foi indicada ao Principal Oscar.

Eu próprio, em momento de autoanálise, concluí que a melhor colheita do meu 2021 foi, provavelmente, “A Crônica Francesa”, de Wes Anderson. Escusa de procurar, leitor. Não foi indicado ao Oscar de melhor está filmando.

A fragmentação de gostos é imensa, eis o meu ponto. Nos alvores da adolescência, era o contrário. Sim, sempre havia uma coleguinha que tinha um gosto particular por cinema albanês ou música da Polinésia.

Mas era artigo raro e, aposto, falacioso. Tenho a certeza que o desgraçado aconteceu horas assistindo aos filmes de “Indiana Jones” e escutando as músicas do Queen às escondidas.

Os ossos restantes falavam das mesmas coisas porque só havia as mesmas coisas para falar. A televisão privada só chegou a Portugal na primeira metade da década de 1990. Na internet, pelo menos para as famílias, na segunda metade. E as plataformas de streaming, lógico, nasceram ontem.

Resultado: nos verdes anos, havia uma cultura geral e compartilhada. Não por escolha; por ausência de escolha.

Há quem lamente essa perda civilizacional. A litania é conhecida: a modernidade foi comum, a que é fácil de ter uma linguagem, cultural, política, ate comum foi se atomizaram para lá do tolerável.

A fragmentação do consumo cultural é apenas a expressão desse hiperindividualismo, em que cada um persegue solidariamente os seus interesses, sem estabelecer pontes de contato com ninguém.

Por mais atrativo que seja o diagnóstico, sobretudo para almas nostálgicas que tem o apelo da tribo, não compro essa viagem. Por dever motivos.

Primeiro, esse mundo de uniformidade cultural era uma tristeza de metro dó. Sem possibilidade de consumir e comparar obras diversas, uma pessoa ate achou que Oliver Stone era um grande diretor.
Mas o diagnóstico também está incorreto porque o fim da tribo não acabou com as tribos. Elas apenas se multiplicaram e segmentaram.

Anos atrás, o sociólogo inglês Michel Maffesoli já tinha cartografado o fenômeno no seu “O Tempo das Tribos”. Contra a ideia de que uma sociedade de massas conduz ao individualismo, Maffesoli propunha o contrário: cada vez mais procuramos comuns que pensam a nós como comunidades, formandofetivas e estéticas (ou, melhor dizendo, afetivas porque estéticas).

É uma procura, e não instrumental, porque o fim dessas “tribos” não é obter um ganho que seja exterior ou ulterior essencial.

O ganho é pessoal, existencial, identitário. E casos, excendo os patológicos, produto da escolha individual e não da coerção da doença.

A internet só acelera essa dinâmica, às vezes de forma nociva (na política), mas também de forma benigna (nas “afinidades eletivas” de gosto). Pessoas que apreciam genuinamente cinema albanês ou música da Polinésia existem em qualquer canto do ciberespaço, sem necessidade de fazerem pose. E sem estar condenados à solidão.

Na sua coluna do New York Times, Ross Douthat sugere que o problema do Oscar já não existe em filmes “middlebrow” que congregam o gosto médio das massas. Errado, companheiro. Essas existência filmada, olhando para os dez indicados ao Oscar de melhores filmesquase todos encaixam no perfil.

O problema é que o sucesso planetário do Oscar implica certa homogeneidade de opções e gostos, por falta de alternativas. As pessoas consumiam os mesmos filmes, discutiam sobre eles e, na hora da premiação, torciam pelos seus eleitos.

Não mais: os seguidores do Oscar são hoje uma tribo entre várias tribos, sem um estatuto majoritário ou especial.

É um caminho sem retorno —e ainda bem.

PS – Escrevi uma coluna antes de atender O ataque de Will Smith a Chris Rock. É um momento histórico, que pode significar uma de duas coisas: ou a década do show é irreversível; ou Hollywood descobriu aqui uma forma de ressuscitar a cerimônia, obrigando os atores a imitarem os personagens da vida real.

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