O motorista, o bankiro, o condenado, a sua mulher e arte deles: Rendeiro num filme sem herois

Podia ser o argumento de um filme de Hollywood, mas João Rendeiro a realidade ultrapassa com ficção. Esboços, polêmicas, personagens secundários, planos de fuga e um desfecho trágico.

1. A paixão do casal: a arte

Nossos filmes sempre têm um elemento de união. No casal Rendeiro um dos elementos é a demonstração de paixão pela arte, que nasceu a coleção pessoal, a coleção do BPP (com que forrou as paredes da sede do banco) e a coleção da Fundação Ellipse.

As obras da primeira alimentação, nos últimos meses, muitas surpresas – e muitas vezes a arte escondia, ao fim do dia, esquemas. Maria de Jesus Rendeiro era a fiel depositária das obras de arte que eram encaradas como uma garantia para os locados do BPP. Quando as autoridades quiseram saber o paradeiro delas, perceberam que mais de uma dezena das 124 estavam em parte incerta. Depois de uma ida (pouco criadora) a tribunal, foram as obras de arte a colocar o grande amor de Rendeiro em prisão domiciliária na Quinta Patino – ea prender quase todos os bens da família.

O ex-banqueiro terá encaixado mais de um milhão de euros ao vender, vender fez-lo, oito das obras que estavam à guarda da mulher. Recentemente, na Polícia Judiciária acabou por recuperar, numa galeria em Bruxelas, um desses quadros desaparecidos – “Piaski”, do artista Frank Stella – que tinha sido vendido por mais de 126 mil euros. Nas buscas, acabou por ser encontrada também uma imagem de Nossa Senhora do século XVI, aceite a 10 mil euros. Estava em casa do motorista da família. E esse é o mote para o próximo capítulo.

Rendeiro com a mulher, uma das peças-chave na investigação

2. O motorista de confiança

Nossos filmes e séries tendem a aparecer uma figura onde os poderosos estão a sempre-sempre que precisa de fugir rapidamente de um lugar ou de levar a sua diante: o motorista.

No caso de João Rendeiro, esse clichê parece bem real. Em 2015, o ex-banqueiro vendeu imóveis em Lisboa em Florêncio de Almeida, presidente da ANTRAL, alegadamente abaixo do preço de mercado. Três anos depois, o “rei dos táxis” e o proprietário dessa propriedade para o filho: Florêncio Correia de Almeida, que foi durante anos o proprietário da família Rendeiro.

Com a venda dessa propriedade por 1,5 milhões, muito acima do preço que o pai tinha comprador, o filho Florêncio acabou comprando um apartamento milionário exclusivo da Quinta Patino, onde moravam os patrões.

A história não fica por aqui: o motorista cedeu o uso, em troca de 200 mil euros, por 15 anos a Maria de Jesus Rendeiro. É la que está a cumprir prisão domiciliar. Como as autoridades agora estão a investigar os negócios, por acreditarem que o carro não foi uma única coisa levada por Florêncio Correia de Almeida para a família Rendeiro – pai e filho, devem agora ter servido de testas-de-ferro para branqueamento de capitais.

Florêncio de Almeida fez negócios com Rendeiro. O filho, com o mesmo nome, era motorista da família

3) Protagonista: do miúdo gozado ao “self made man”

“Não me estou a queixar, mas sim uma vida de luta. E acho que só faz bem às pessoas”. João Rendeiro quis si a imagem de “homem feito para o homem”, que alimentou e se fez de filmes de Hollywood. Ele foi o rapaz de famílias humildes, gozado pelos outros miúdos no bairro, que trilhou o seu caminho ao sucesso – com a ajuda da mulher para pagar os estudos universitários.

Chegando ao meio financeiro, como resistências para pertencer à elite desejadas foram muitos, segundos relatos do próprio. Uma “sardinha” no meio dos tubarões, descrita-se. Filho de um sapateiro e de uma doméstica, Rendeiro conseguiria rodear-se dos nomes mais poderosos de Portugal. Elogios não lhe faltaram.

Em 2008, enquanto o BPP começava a fundar-se, lanceva um livro para mostrar o seu exemplo. No prefácio, João Cravinho escreveu a capacidade do ex-banqueiro de “chegar mais alto pelo seu próprio mérito, com toda a limpeza”. Noutro dos seus livros, David Justino escreve que “Rendeiro conhece bem os meandros da política e dos negócios”. Tanto qu’fait próximo do líder máximo da nação. Em 2006, fé um dos financiadores da campanha presidencial de Cavaco Silva. Nesse mesmo ano, como Presidente da República, Cavaco elogiava, com Rendeiro ao lado, “os empresários e gestores de sucesso”.

Foram muitas as contrariedades a atrasar o processo de extradição

4. Salgado, o arqui-inimigo

Nossos “blockbusters”, o protagonista, por mais simpático que seja, tem sempre de enfrentar um inimigo – ou, caso contrário, não há ação para seguir. No caso de João Rendeiro, essa força do mal tem um nome: “o sistema”. E, se ele pudesse ser personalizado, Ricardo Salgado seria a primeira opção. Isto porque, na última entrevista dada na CNN PortugalRendeiro dizia-se injustificado e fazia uma comparação direta com o antigo presidente do Banco Espírito Santo, que era “protegido pelo sistema” e “segue com a sua vida”.

“Como nunca paguei a ninguém e não tenho segredos do Estado, sou um poderoso por mais fraco”, argumentava Rendeiro, enquanto apontava também o dedo ao Banco de Portugal ter problemas de salgado aos primeiros sinais não de problemas no Grupo Espírito Santo. E, nesta crítica, encontra-se um dos alvos recorrentes dos ataques do gerenciador bancário ao longo dos anos: o regulador, que blocou das soluções desejadas por Rendeiro para vários o BPP. Na altura da queda do banco, acusou o então ministro do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, de ser controlado pelo primeiro-ministro. Quem assume esta carga em 2008? José Sócrates.

Nas idas a tribunal, era notório o desgaste no ex-banqueiro

5) Um plano de fuga com moradas falsas

João Rendeiro saiu de Portugal tem 14 de setembro de 2021 com destino a Londres. Apesar de estar a contas com a Justiça, pode viajar para qualquer país. Mas havia uma contrapartida: teria de informar como autoridades para que destino se ia deslocar e fornecer uma morada onde ficaria instalada. É aqui que regressam os contornos de filme a esta história.

Rendeiro utilizado como moradas dos postos diplomáticos. “É inequívoco que uma representação consular ou uma embaixada não são lugares de constituição livre e fruição pelos cidadãos, sendo portero desprovido de razoabilidade que o arguido asindica como o seu paradeiro”, lê-se no despacho do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa , que exige a sua presença em audiência a 1 de outubro. Mas Rendeiro já estava, na altura, em paradeiro incerto.

Aos 28 de setembro, já condenado a prisão de setembro, anunciou que não voltaria a Portugal. “Legítima defesa”, argumentou. O plano de vôo seria capaz de inspirar os melhores argumentistas, ate porque se terá socorrido de passaportes falsos e de contas offshore para tentar não deixar rasto: de Londres para Doha, no Qatar, de jato privado. E depois, daí, ate in Africa do Sul, onde circulou por várias cidades ate ser detido, em pijama, num hotel de luxo, a 10 de dezembro. A vida real, com Rendeiro, parece superar os filmes. O final, a morte na prisão, a contrastar com todo o luxo da narrativa.

Leave a Comment

Your email address will not be published.