“O Meu Corpo Humano”, de Maria do Rosário Pedreira. Uma ‘sonata’ melancólica

Após silêncio longo, Maria do Rosário Pedreira regrediu para poesia com um livro em que reconhecemos de imediato a sua voz, a sua cadência, a sua prosódia, embora num registo que parece obstinado em se afastar dos livros anteriores. Depois desses primeiros ciclos líricos de um romantismo demedido e quase anacrónico (ou antes: fora do tempo) — com suas variações obsessivas sobre o amor e perda, a total e o esgotamento da paixão, as ausências e os recomeços —, a autora parece procure outras formas de dizer, nalguns casos francamente inesperados, porque mais abruptas e intempestivas, capazes de criar no leitor estranheza e desconforto.

O livro está organizado em três partes, como seossem andamentos de uma sonata: a abrir ea fechar, duas secções entituladas ‘o meu corpo humano’, com poemas na primeira pessoa, amenos ou vertiginosos; entre estas, uma seção intitulada ‘o teu corpo humano’, um olhar para eles fora, para os outros, sejam figuras imaginárias ou concretas, ficções ou embates súbitos com a realidade, “feridas” na “pele do quotidiano”. Cada poema relaciona-se de alguma maneira com uma parte do corpo (‘olhos’, ‘cintura’, ‘tornozelos’, ‘pulso’, ‘coxa’, ‘útero’, ‘língua’, ‘rins’, ‘falange, falanginha e falangeta’, etc.), mas não estamos perante um mero teatro anatômico, o jogo é mais complexo e sutil do que isso. Maria do Rosário Pedreira não escreve apenas sobre o corpo — ela escreve com o corpo: “amarrotado”, precário, sob permanente (“daqui ate à mort é um instante”), e ainda aberto ao sortlégio.

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