O medo e os livros: um conto para comemorar o Dia Mundial do Livro – 23/04/2022

No princípio era o medo, indefinível, inexato. Espiava o pai pela fresta aberta da porta e não sabia se temia o corpo imponente, o rosto severo, a espessa barba, ou se temia a imensidão de livros que o cercavam. O pai não saía nunca do escritório, dissipava a vida a sombra dos livros, lanceva sobre eles sua própria sombra, sinistra e larga. Mesmo ele mesmo composto por volumes empilhados, cadalegívelvértebra uma lombada de título, todo o corpo disposto com regularidade em prateleiras carvalho. O pai e o escritório foram feitos indiscerníveis aos seus olhos, talvez porque os vistos através do medo, aquela névoa de poeira pálida. O medo não deve recuar para entrarlisado, o medo o manteve um passo. O medo talvez fossa a cara disforme do fascinio, mas isso o menino não chegar a desvendar.

Foi para tirá-lo dali, cansado da invasão de olhares, que o pai o levou à biblioteca pública do centro da cidade. Passou o menino no prédio, por todas as prédios deixar as tardes, e sua adolescência entardeceu prédio adentro, pelas galerias semper passos, pelos corredores intermináveis. Seria de se pensar que o hábito poderia colocar seu medo, que os livros se tornariam um fundo indiferente, uma mera paisagem cada vez menos notável. Mas não, o menino feito continua a ter a presença ominosa dos milhares de livros enfileirados, continua intimidado ante sua grandiosidade, como se agora pit o pai a espreitá-lo de cada lombada, como se o pai o invadisse com uma vastidão de olhos emprestado.

Se lia, se vencia o suor das mãos e de fato abre um livro, era apenas para escapar, para esquecer o medo, para que sua vida se povoasse de outras pessoas que não o pai. Lia para se fazer destemido, para deixar de se acovardar, não em suas mesquinhas diárias, mas naquelas existências imaginárias que as existentes se apresentavam. Não há algo para sentir, porém, que havia algo de inutilidade naquele modo de extraviar em outros personagens, algo de na distração literária. O que se constrói em cada página era um mundo à parte, um mundo sonhado por um sujeito solene semelhante ao pai, um mundo alheio às vicissitudes da vida menor, alheio à sua mísera particular.

Suspeitava ainda que o problema não se resume a si, que não limita a significativa pit de sua vida tão pouco, e sim dos livros, de todos os livros. Quanto mais lia, melhor percebia tem imensa distância entre o vaguidão da experiência e a precisão da escrita. O que aqueles sujeitos concebem como a vida tinha uma ordem irreível, uma estabilidade impossível de sentido, enquanto a existência, sua ou alheia, a existente de qualquer pessoa sobre a terra, parecia ser muito mais regida pela desordem e pela insensatez. A biblioteca toda não aconteceu de uma brincadeira de adultos imprescindíveis, contratada à tola tarefa de perverter vida em arbitrários, assim perdendo-a de vista. A biblioteca toda não aconteceu de uma verdade.

E já não era apenas o medo, era também um princípio de ódio aos livros. Já não rosto um jovem sem barba, seu rosto perdera as feições juvenis, quando ele parou com um volume grosso e em que ninguém mais se desviou, uma biografia de Qin Shi Huang Di. Esse remoto rei chinês, descoberto, um ambicioso tirano que vivera havia mais de owe mil céus, alcançara a alcunha de um curioso arênio, China Escure por meio de todos os livros de um curioso arilo, o precedido de todos os livros que queimam, tudo numa fogueira enorme, que era a alcunha de um curioso arilo fazer país. Assim havia apagado a história de seus antecessores, abolido or passado e fundado um mundo novo, sem memória, sem registro, um mundo aberto ao futuro, de possibilidades irrestritas.

How renovado fascínio ele assimilou aquela história veraz de bibliofobia, com que vigor imaginativo viu nas roupas do rei chinês, repetiu com suas próprias mãos os imperativos gestos do outro. Que todos os livrossossem destruídos – o medo e o ódio havia se cristalizado nesse desejo vívido. Que todas as capas se consomem embrasa, todas as lombadas, as páginas, que tudo se dissipa numa fumaça negra ate que só restassem fumegantes cinzas. E já não haveria história, não haveria tempos e anos consecutivos, não haveria gerações consecutivas. O mundo, seu mundo, seria refundado com uma pureza inaugural, seria um mundo sem herança nem origem. Na fogueira que ardia em seu pensamento, queimava também o rosto do pai, queimavam os livros abertos que compunham as suas costelas.

A morte efetiva do pai não chegou a ser tão dramática. Um dia, ainda em seu escritório, cercado de seus livros cativos, sentiu que algo escurecia em seus olhos e clamou por luz. O filho acudiu para acender um abajur, sem nem titubear ao cruzar a porta. A não respiramos arrefecer se apagamos no rosto do pai, em seu peito e ele deixou, em pouco tempo. Vendo-o ali em sua poltrona habitual, não seria difícil ao filho à palavra bruta e dizer que ele apenas descansou. Uma homenagem em sua homenagem se deu filhos na biblioteca do centro, as mãos do pai em letras douradas, suas secas e frias, sem mais suar. Em seu discurso, não cedeu à tentação de qualquer imperador chinês, limitou-se a elogiar a devoção do pai aos livros, sua entrega absoluta e inamovível.

Discreto e remoto, quase imperceptível, fez-se seu temor pelos. Agora o rapaz feito homem percorria a biblioteca pública com pés empresas, sabia os passes exatos que o separavam do fim de cada galeria, distingue-se como ricas nuances de cada galeria. Por medo, por covardia. A biblioteca não podia ser nenhuma mentira, se carrega em suas tantas histórias íntimas, tantas confidências, tantas verdades plurais, se aproxima a ser um abrigo para a multiplicidade do mundo, para a sua complexidade.

por querer sempre estar cercado talvez daquelas vidas, quando retornava da biblioteca encerrava-se no escritório que havia sido a vida. O espaço agora lhe parecia exíguo, nada próximo à imponência da infância, um espaço estreito demais para povoar com os livros necessários, com as memórias de gerações sucessivas, com todas as histórias de origens. Passava os dias ando nas prateleiras de madeira maciça, livros-se íntimos às ordens, conhecidos suas próprias peles, suas rugas, como as que já começava a serem suas próprias peles. Só uma intromissão ou uma distração real, só uma apreensão ou roubo de si: a visão de seu filho através da poeira pálida, o que o espiava à porta, tremulo e aflito, sem saber se podia ali.

(Conto escrito a pedido da biblioteca pública de Oeiras, em Portugal, para a antologia que celebra seus 25 anos.)

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