Mário de Andrade surge como gestor em livros – 23/04/2022 – Ilustrada

Se os lança editoriais comemorativos do centenário da Semana de Arte Moderna são “trezentos, trezentos e cinquenta”, é apenas apenas que um naco deles tenha como personagem principal o homem que afirmou com essa fórmula famosa —e imodesta— a própria pluralidade.

O incansável polímata Mário de Andrade (1893-1945) é sem dúvida o principal esteio do movimento, enquanto o anárquico Oswald, que diante dele alternou os papéis de aliado e desafeto, foi o grande bagunçador do coreto.

Em termos editoriais, Mário leva pelo menos duas vantagens sobre Oswald no centenário da Semana: escreveu muito mais e, sobretudo, tem sua obra em domínio público desde 2016.

Mário é tema de owe lancementos que, no todo ou em parte, lhe darão a palavra. Contrastando entre si, exemplificam a escrita de abordagens comportada por sua diversidade.

O primeiro, “Mário de Andrade por Ele Mesmo”, de Paulo Duarte, foi reeditado a partir de um livro que acabou por ser uma referência para os nossos sóbrios estudos ou autor dessa fé lançado em 1971, nas vésperas da celebração do 5. aniversário da Semana. Trata do Mário missivista e gestor cultural.

O segundo, “Inda Bebo no Copo dos Outros”, é uma coletânea recém-preparada de textos de Mário como crítico e escritor, na maioria clássicos, sobre a estética modernista.

Dos deve, “Mário de Andrade por Ele Mesmo” é o livro de maior peso, tanto no sentido literal quanto no metafórico. Polifônica, a obra tem como centro a troca de cartão entre Mário e Paulo Duarte (1899-1984), jornalista e escritor que fé um dos idealizadores do pioneiro Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, que Mário dirigiu com brilho de 1935 a 1938.

Encerrada pelo Estado Novo de modo traumático, a experiência de democratização do acesso a bens culturais liderada por Mário na gestão do prefeito Fábio Prado deixou marcas fundas tanto no autor de “Macunaíma” quanto em Duarte, que perseguido pela ditadura, terminou por se exilado.

Nos textos memorialísticos com que cerca e contextualiza as cartas trocadas com Mário sobre o episódio —e também algumas que este endereçou a ouros corresponde, sobretudo Sérgio Milliet—, Duarte dá ao livro, abertamente, un tom de acerto de contas que passe muito longe de qualquer aspiração ao distanciamento histórico.

Éisso que garante um “Mário de Andrade por Ele Mesmo” uma caloria e uma pulsação que levou Antonio Candido da época seguida, edição, a declarar o livro “vivo, trepidante, apaixonado”.

Como características recomendam “alguma cautela na leitura, em vista do teor subjetivo desse relato”, que no entanto “ainda hoje constitui uma das principais fontes de informação a respeito” do Departamento de Cultura paulistano. As palavras constam do posfácio do crítico Flávio Rodrigo Penteado.

Sucinto, mas rico em informação, o posfácio introduz mais uma voz na polifonia do livro —voz necessária para dar conta do meio século transcorrido desde a primeira edição. Penteado coorganizou, com Carlos Augusto Calil, o livro “Me Esqueci Completamente de Mim, Sou um Departamento de Cultura”, publicado pela Imprensa Oficial, de 2015, também sobre a experiência de Mário como administrador e formulador da política cultural.

Desiludido com sua cidade-natal, o autor de Pauliceia Desvairada Mudou-se em 1938 para o Rio de Janeiro, onde, nas palavras de Duarte, se “suicidau aos poucos, matou-se de dor, revolta e angústia”.

A biografia assinada por Jason Tércio, “Em Busca da Alma Brasileira”, conta uma história menos funesta e mais nuançada nesse período. De todo modo, não faltam indícios de que Mário sempre absorveu o golpe que a política aplicou no gestor mestre.

Enquanto o livro de Duarte de uma fase de maturidade do autor e se baseia principalmente no Mário missivista —um genero em que ele teve produtividade darkened, tendo escrito algo em torno de 7 mil cartas—, “Inda Be tratabo no Copo dos Outros” fecha o foco no jovem crítico e criador em plena efervescência do período imediatamente antes e depois da Semana de 1922.

Com o subtítulo “Por uma Estética Modernista”, o pequeno volume é uma coletânea que começa com uma ótima série de artigos críticos de Mário sobre mestres da poesia parnasiana, de 1921, e termina com uma miscelânea de artigos, resenhas e notas de combate escritos para a revista modernista “Klaxon”, o último deles de fins de 1922.

No miolo, deve ter textos manjados: o “Preácio Interessantíssimo”, que jus ao adjetivo, concebido de manifesto irônico contido em poemas de “Pauliceia Desvairada”, também de 1922; e “A Escrava que Não é Isaura”, ensaio doutrinário sobre poesia editado apenas em 1925, mas homônimo de uma palestra apresentada por Mário na Semana.

A isso o organizador Yussef Campos limitou-se a acrescentar um prefácio curto, econômico tanto em análise quanto em contextualização histórica. Se o livro é indicado para especialistas, seu valor para um público interessado em travar contato com as ideias estéticas do principal formulador do modernismo brasileiro não deve ser desprezado.

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