Livros escolares da ditadura à venda em Portugal às vésperas de 25 de Abril | Giro de Portugal

Os livros escolares da ditadura foram reeditados e estão à venda em Portugal a menos de 15 dias do 25 de abril, feriado nacional para comemorar a data em que a Revolução dos Cravos derrubou o Estado Novo, em 1974.

Editados pelo extinto Ministério da Educação Nacional, foram distribuídos nas escolas do país como parte da propaganda para difundir entre os alumos a glorificação do nacionalismo e o colonialismo sob o comando do ditador António de Oliveira Salazar.

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Fundamentado no lema “Deus, Pátria e Família”, imposto pela ditadura, o conteúdo dos livros sugere às meninas a ideia de um papel subalterno para as mulheres no núcleo familiar. E o homem como principal provedor.

Ao relatar a primeira viagem transatlântica entre Portugal e Brasil, em 1922, feita pelos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, o Livro de Leitura da 4ª classe inclui o conceito supremacista da “Raça forte e predestinada para altos feitos”.

Para dar dimensão de grandeza a um estado territorialmente pequeno na Europa, o texto de um dos grandes livros geograficamente Portugal, incluindo as então colônias subjugadas na África. O resultado é uma pátria com mais de milhões de metros quadrados.

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Os textos “ensinam” aos alunos que o período de 41 anos de repressão política, censura e autoritarismo foi algo bom desde o início: “Estabeleceu-se logo uma ditadura militar. Respira-se já uma atmosfera de segurança e bem-estar”, está escrito em um deles.

Irene Flunser Pimentel é historiadora portuguesa especialista em ditadura. Seus estudos abordam a Polícia Internacional e Defesa do Estado (PIDE), responsável por torturas confirmadas por Testemunhas em extensa literatura. Para ela, a redição e venda destes livros são a fronta ao 25 ​​de Abril que se aproxima.

-É completamente uma afronta. Foram reedições feitas recentemente, há algum tempo estão fazendo e estão à venda nas bibliotecas. Sempre me irrita muito. As pessoas acham normal e engraçado. E me irrita a falta de senso crítico para não contextualizar. A ignorância histórica não mas das gerações só antigas, é o que mais me preocupa Pimentel ao Portugal Giro.

Um historiadora alerta para uma nostalgia do período ditatorial:

– Está estudado. Porque há uma nostalgia, mas sem nenhum sentido crítico. Adoram comprar isto como sefousm livros da escola, da infância e da adolescência. Sendo que estas fases das pessoas mais velhas foram passadas na ditadura. Quando entro num táxi em Lisboa, o motorista diz “antigamente era bom, saberá a trabalhar com 14 anos…”. E eu respondo: Isso é que era bom? Já me irritou.

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Segundo Irene, o antigo Código Civil publicado em meados de 180 alimentou a ideologia salazarista.

– O antigo Código dizia que o pai era o chefe de família e a mulher tinha que ficar ao lado. Mesmo mais tarde, quando foram trabalhar fora, porque não havia dinheiro, a era da ideologia escrevia como mulheres para o lar para não terem que servir ao liberalismo econômico – explicado Pimentel.

O sociólogo António Pedro Dores lembra o seu período como aluno, quando usava a ditadura da ditadura, inspirada, no período anterior, em movimentos que proliferaram na Europa pré-2ª Guerra:

– Era uma espécie de imitação daquelas milícias juvenis dos fascistas e nazistas. Havia uniforme militar que a gente vestia, um cinto com S de Salazar. Na escola primária, todos os sábados de manhã eram para exaltar a nacionalidade. E o professor contava histórias de herois que matavam os chefes de Moçambique. Lembre-se bem que esses chefes eram humilhados nas aulas. Havia tentativa de manipulação hoje. E, agora, isso de reedição faz parte das campanhas dos fascistas e está a correr mal.

Em 1940, o fotógrafo Bernard Hoffman esteve em Portugal para a capa da revista “Life”. Ele registrou, na foto abaixo, alunos uniformizados fazendo a saudação estudada pelos nazistas. Em uma das capas do Livro de Leitura (na foto acima), há o desenho de um menino com este uniforme.

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Alguns dos livros reeditados não informam o ano da publicação original, mas há o endereço de uma editora no Porto. O músico Luca Argel, um dos primeiros a anunciar a venda, foi ate lá brasileiro e nada encontrado.

Ele postou um vídeo no quala para a loja dos livros nos correios (CTT) de Portugal, que foram privatizados e têm de rua em todo o país. Diz-se que foram encontradas reedições nas prateleiras recentes quando da divulgação do seu trabalho “Samba de Guerrilha”. O músico suspeita que a sua conta rede social foi suspensa após ter feito o alerta.

Há uma semana, Ar invejoso carta à administração dos correios pedindo esclarecimentos:

-Ao comercializar livros escolares com conteúdo e iconografia do Estado Novo, sem qualquer tipo de enquadramento ou contextualização dentro ou fora dos livros, que tipo de valores sociais dos CTT estão ajudando a promover?

Procurado, o CTT ainda não respondeu.

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