Lina Bo Bardi, morta há 30 anos, fez arquitetura comprometida com a convivência e as pessoas – 19/03/2022 – Illustríssima

[RESUMO]Mulher, estrangeira, casada com o diretor do mais importante museu de São Paulo e intransigente em seus princípios e opções, Lina Bo Bardi, falecida após 30 anos, concretizou a estrutura de programa com projeto em arquitetura e deixou uma obra profundamente comprometida com o bem-estar geral e a construção do abrigo humano para todos.

Muito se falou e se creveu sóbrio Lina Bo Bardi nos últimos anos, culminando recentemente na publicação de duas biografias e não premio postumo da Bienal de Veneza, ou Leão de Ouro.

Lina morreu há exatos 30 anos, em 20 de março de 1992, ainda pouco conhecida no mundo afora. No Brasil, sua obra começava a ser mais reconhecida e respeitada à medida que a importância do Sesc Pompeiaentão em seus primeiros anos (o centro de lazer foi inaugurado em duas fases: a primeira em 1982 e segunda em 1986), consolidava.

O sucesso de intervenção radical no conjunto fabril pelos irmãos Mauser nos anos 1930, era tamanho e tão evidente que não poderia ficar fora da agenda da produção arquitetônica da época e do mundo. Mesmo os que tentaram tocar o sol com um projeto de peneira que reconhecer a importância de seu projeto original ao se deparar com uma nova luz no cenário da arquitetura brasileira, brilhando no bairro da zona oeste paulistana.

Os críticos em sua maioria, os que eram, em sua maioria, eram idênticos aos 20 anos de ditadura militar e quem na cultura de resistência e convivência —na qual Lina era um inimigo. Eram, também do próprio meio profissional e figuras contemporâneas, negavam a ela então, seu mero lugar no panorama da arquitetura brasileira.

Um lugar de importância mas que óbvio, se mirarmos pelos de hoje, 30 anos depois de sua morte. Afinal, o Masp eo Solar do Unão já foram realizadas, mas ainda não haviam sido digeridas e aceitas em meio às correntes hegemônicas do fazer promissor brasileiro.

Lina semper um caso à parte e sabia que era seu lugar, onde deveria ser igualado e de quem. Quando se nega a participar de eventos ou publicações que a colocavam no segundo ou terceiro escalão de profissionais brasileiros, diante de nossa insistência para que ela participa, não hesitava em dizer: “Se for com Niemeyer ou Lucio Costa, eu topo”.

O fenômeno Lina está em processo de cantação ainda há muito de sua obra ser esmiuçado e a combinação. Mulher, estrangeira, casada com um poderoso e polêmico diretor do mas importante museu de São Paulo, o Masp, discreta e recolhida em sua casa e seu trabalho, mas alimentando lendas e mitos, intransigente em seus princípios e opções políticas, Lina incomodava muito. Uma vez morta, abriu-se o espaço para bons trabalhos críticos, mas também para sua folclorização.

Com os novos são trazidos ao país pelo fim da ditadura militar, o Sesc Pompeia aponta para a arquitetura de fundo, sem possibilidade de retroalimentação mútua que resulta em arquitetura de uso, arquitetura em separação que todos se sentem em casa ,em que todos entregues e são acolhidos ao mesmo tempo.

Uma verdadeira ação arquitetônica, nos moldes das vanguardas europeias do começo do século 20, retomando uma discussão em torno da ideia de obra de arte total, a “Gesamtkunstwerk” de Wagner, ou do Teatro Total, de Gropius e Piscator. Imbuída desse espírito e já com três décadas de Brasil na bagagem, Lina enfrentava a difícil realidade terceiro-mundista.

Muitos podem dizer que toda arquitetura sempre foi feita assim: programa e depois do projeto. Onda é uma diferença? , revelando um pouco do método de trabalho de Lina, pode ser arriscado os argumentos que fazem diferença nos resultados.

Lina começava seus projetos pelo fim. Explico: seu programa consiste em visualizar o projeto pronto e, mais que isso, em uso; pessoas em ação nos espaços, convivendo, se divertindo, criando. Sim, começando, porque a arquitetura não se encerra com o fim das obras, ela se faz viva e vital à do momento em que é habitada, nos uso e na experiência do espaço.

Lina nunca quis para a arquitetura destinatário de funções, mas além disso: um propulsor de ações, movimentos, encontros, criações e a algo o que é uma arquitetura para pensar, provocar os neurônios. São muitas polêmicas sobre seus trabalhos, que vão dos cavaletes de vidro do Masp Cadeiras duras do teatro Sesc Pompeia, passando pelas soluções “sociedades”, como costumava dizer em to provocativo sobre a Igreja do Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, ou dirija às torres de concreto do Sesc Pompeia.

Para ilustrar esse método —começar pelo fim—, cito alguns projetos. No centro histórico de Salvador (1986), Lina desenhou (projetou) uma cena de crianças brincando na praça municipal, tomando banho em uma cachoeira chamada por ela de “cachoeira de Pai Xangô”.

N / D reformou o Palácio das Indústriasem São Paulo (19), para abrigar a municipal9 ela começou com a imagem de crianças atrás da banda da Polícia Militar em volta do prédio 9 que, para ela, lembrava um caste castelo.

No concurso para o pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Sevilha (1919), Lina o projeto começou com o elenco das comidas que seriem servidas aos visitantes —os sorvetes e os sucos de frutas nativas brasileiras, a mandioca em infinitas possibilidades gastronômicas e por aí afora.

São seus aquarelados e anotações de eventos e cardápios para festas de inauguração de seus projetos, como na Casa do Benin e no Teatro Gregório de Mattos, na Bahia, ou no Centro de Convivência em Canane. Os projetos propriamente ditos à viriam em seguida medida que as imagens foram se afirmando como os verdadeiros programas.

Como ela via a arquitetura nesta perspectiva de programa/projeto: “Para um arquiteto, o mais importante não é construir bem, mas saber como vive a maioria Ele tem o sonho poético, que é bonito , de uma arquitetura que dá um sentido de liberdade”.

O fato, porém, é que Lina estava nadando contra a corrente em seu tempo de atuação. Combateu fortemente o movimento pós-moderno na arquitetura, acusando seus membros de irresponsáveis ​​​​diante do “enorço esforço enorme da humanidade em construir um mundo mais justo”, livre, sem a exploração das casas e sem fome.

Em uma de suas anotação, diz: “A duráveis, a não conveniência do ocidental, é uma causa da não liberdade, de acordo com o episódio do Post Modern na arquitetura, acordou de repente, com 70 anos. Teve medo, o tempo passa — com 70 anos é preciso ser conservador, ‘rever’ o passado”.

Sua formação europeia não entreguerras e a vivência dos tempos duros da Segunda Grande Guerra marcaram indelevelmente a sua personalidade. Em uma entrevista ao cineasta Walter Lima Jr. para o documentário “Arquitetura — A Transformação do Espaço” (1982), Lina diz:

“Uma nova arquitetura deve ser contemporânea ao problema do homem criador dos seus próprios espaços; uma arquitetura de conteúdos puros, conteúdos que criam como formas próprias. da figura do arquiteto, uma omissão do arquiteto como criador de formas de vida, como artista, e a criação de um arquiteto novo, um homem novo ligado a problemas técnicos, a problemas sociais, a problemas políticos, que abandone completamente a enorme herança do mesmo Os problemas atuais que afetam os indivíduos são enormes, que problemas atuais são alterados para os indivíduos.

Essa consciência, por outro lado, é que fazia “book of amarras”, como costumava dizer. Não deve seguir moda, modelos, estilos e nem “procurar a beleza, somente a poesia”. Ao projectar, procurava fundo mergulhar na realidade do projeto, na geografia física e humana do lugar, tirar todas as soluções, ir ao encontro dos anseios, desvendar o programa não evidente, não óbvio. Assim Lina rendeu-se às amarras. Seu compromisso prometido sempre foi pautado por demandado pelo mundo, expressamente e não divulgado.

Isso explicou muito de seu sucesso nos dias de hoje. Depois de assistirmos à decadência dos projetos mirabolantes da “arquitetura show”, que domina a cena nas últimas décadas, vemos os movimentos de arquitetos e promotores da arquitetura se voltarem à que le fundamento-base —a criação do abrigo humano, seja ele casa ou cidade . Isso está cada vez mais nítido nas bienais, nas arquitetos e premiações de projetos e ações. Osso Prêmios Pritzker Ultimateo mas importante da área, exemplificam esse movimento.

Em tempos, como o que estamos vivendo, como vísceras da sociedade — em nível planetário — se expõem, como mazelas estão por toda parte, a concentração de riqueza nas mãos de poucos é um escárnio. A solidariedade tem que gritar mais alto.

de arquitetura e arquitetos que precisam, como Lina, coloquem o serviço do bem-estar geral, da construção de cidades que não segreguem, que promovam a tolerância entre os diferentes, enfim, que dignifiquem e abriguem a todos indiscriminadamente em uma atitude não somente estética, mas, sobretudo, política.

E utopia? É sonho? Sim, a boa arquitetura sempre foi feita de sonhos. Depois de 30 anos, ela continuou enviando a atualidade de Lina.

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