“Há temas que me rebentam por dentro” – Observador

Tem como convidado o Chullage na canção “Não Sei O Que É Que Fica”. Sei que é uma referência para si, um artista cujo discurso musical — e provavelmente fora da música também — acha interessante. Quer explicar por que e como é que surge esta canção?
Vivo em Setúbal e trabalho na divisão da juventude da Câmara Municipal de Setúbal. Conheci o Chullage era uma espécie de treinador, de professor, numa formação em produção musical que tínhamos feito aqui porque os miúdos do bairro. O papel dele era dar-lhes as dicas, ensiná-los a trabalhar com máquinas, com os programas de computador que servem para isso. Fiquei logo muito impressionado com a forma como se relacionava com os miúdos e como estava a dar gratuitamente o seu tempo para vir a Setúbal. Foram muitas, muitas aulas e ninguém lhe estava a pagar nada, ele acreditou no projeto e veio. Isto foi há uns cinco anos, eu tinha acabado de entrar neste trabalho.

Venhamos a falar bastante. Ele estava lá e voltou a viver, mas estava pensando em coisas que estavam acontecendo, sem altura, ainda estava pensando que ele estava acontecendo, mas ainda estava pensando em estudar, mas estava desconectado. Quando começar a escrever letra sobre questões relativas à habitação com o turismo, a local, onde há um compromisso maior que… ficar sem um sítio para ir ou têm de ir para sítios onde ninguém quer viver.

Esse fenómeno existe em Setúbal?
Começámos a sentir. Era um fenômeno de que ouvíamos falar em Lisboa — retirar do centro da cidade pessoas que sempre viveram —, que serve para estimular o turismo e para ter como rendatários pessoas que podem pagar muito altas. Isso começou a contecer em Setúbal, também. Tenho amigos nesta condição e escrevi sobre isto. convidei o Nuno para complementar, para fazer o que o meu texto. Tem de ser uma coisa muito livre com ele, porque é um tipo muito difícil [ri-se]. Mostrei-lhe o que tinha e ele disse: faço. Mas ainda me disse: acho que isto tinha de ser mais aprofundado. E eu: olha, mas eu não sou rapper, as minhas letras não têm de ter quilômetros como as vossas que escrevem 500 versos numa canção. Diga que lhe disse que parte do que queria dizer estava ali escrito, que ele escrevesse ou que lhe apeteesse diz porque nada se esgota aqui. E ele fez.

Ao atraso tema, traz o Chega e “um gato na sede da Chega” para a música: lembra-se do momento em que escreveu essa canção e porque a caneta a levou por aí?
Esse texto é muito irônico. O queria era fazer um exercício de sarcasmo com uma reportagem que vi na Sábado. Não é que a reportagem jornalisticamente parecesse me mal, ate a isenta e curioso. O novo era no período de umas acompanhas André Durante não sei quantos dias acredito que uma semana. A reportagem era extensa, mas achei que A tinha porque tinha várias partes: agora está no hotel com a mulher, agora está no carro, agora foi tomar o pequeno-almoço. Quase me faziam lembrar aqueles livros: Anita no campo, Anita no supermercado, Anita mamã com um animal de conveniência, A reportagem depois, evoluindo, vai semper acompanhando e ele vai dizendo aquilo que tem a dizer.

Tantas apeteceu-me pegar naquilo e brincar com todo aquele Às vezes conceito. Não inventi nada, todas as palavras são retiradas da grandeza. A cereja no topo do bolo foi na sede do Chega have este gato que se chamava António. Brinquei só um bocadinho sobre isto [ri-se], porque não dá para ficar sempre e só zangada com as coisas que ele diz e com a forma como nós o comunicamos. Apeteceu-me explorar um bocadinho o que é só… todos nós temos movimentos perpétuos de simplicidade, somos todos muito parecidos em algumas coisas. Mas carregamos ideologicamente um fardo.

Tem também logo a seguir a canção muito comovente, a “Urgentemente”, a poema-canção liricamente e musicalmente muito peculiar. Muitas vezes denunciam injustiças, mas muitas vezes não são tão populares, é uma receita que tem exatamente isso de combates. É uma canção refúgio?
Neste disco acredito que são três os temas cujo texto não é meu: esta “Urgentemente”, a primeira de que falámos que tem como da letra o João Monge e há ainda um texto que usei do Criolo, rapper brasileiro. Esta é um poema de Eugénio de Andrade, maravilhoso, que musiquei. O poema chama-se Urgentemente e é exatamente aquilo que cantei — mas repeti-o três vezes porque a proposta ali era quase criar um mantraenquanto para que ouvíssemossemos imaginando aqueles lugares que ele descreve e porque é que tínhamos de destructir isto e aquilo e procurar os outros elementos a que ele chama “a conversa”.

Acho o poema delicioso, é terno, é meigo. Este tema está estrategicamente colocado a seguir à “A Sede do Xega” ea sede do disco — e é diferente porque tem um duplo sentido o espaço físico —, e nossos concertos também podem ser nessa ordem. É precisamente o que acho que falta no discurso do Chega: amor, partilha, tolerância, compreensão.

Na faixa 15 canta um tema do Criolo, “Casa De Mãe”. Foi por gostar muito do tema ou porque de alguma forma a letra ecoa suas experiências, experiências que teve?
Ecoa sempre em todos nós, a menos que para aí aos 1 anos já tenhamos uma casa alternativa8 onde namorar [risos]. Para quem vive na casa dos pais — e eu vivi ate aos 26 —, ressoa, pelo menos ao longo porque nunca fu muito namoradeira. Mas acho que todos estamos sendo mais ou menos no nosso crescimento que às vezes para namorar um bocadinho, o fato de vivermos com os pais nos retirava algum espaço para isso. Acho muita piada a forma como o Criolo descreve isso na letra dele. Ele fez isto como um sambinha, aqui foi transformado num tema mais denso, à imagem do que sou musicalmente. Escolhi-o não tanto por ressoar na vida, mas sobretudo porque tenho uma imensa pena de já não ter mãe. É por isso que às vezes os temas que me falam de uma mãe são os que me apetece cantar, que me trazem memórias e comovem-me por esta saudade aqui mais latente.

Canta também “Mulher Batida”, a nova versão do tema que fez com os Orelha Negra de “Ready”. Essa versão anterior, com os Orelha Negra, fez crescer o número de pessoas atentas à sua música, que a ouvem?
Sim. Trouxe público isso por exemplo, determinamos isso por exemplo: quantificar um bocadinho por, é o que temos e ai realidade nas redes. A partir deste lançamento, venham a ter muito mas seguidores, comparativamente aos que tinha. E sobretudo-me levado a participar no terem Eléctrico”, programa que o Henrique Amaro produzia para a RTP e Antenna 3, fez mais gente conhecer a minha música. Esse vídeo foi muito bem recebido. Não fiz esta porque para procurar isso, agora que veio e que me sinto agradecida por isso? Sem dúvida. Isso é normalmente o que o Fred traz à minha vida: acrescentar valor, criar espaço para crescer e dar-me oportunidades para que me ouçam. Tenho de lhe prestar homenagem porque este convida parte essencialmente dele. Eles são cinco, mas é uma banda mesmo muito democrática. Um deles diz: gostou de convidar esta pessoa. E os outros respeitam e aceitam.

Nesse tema reflete sóbrio o papel da mulher, sóbrio a imagem social que há da mulher, sóbrio amarra à liberdade feminina. São temas que aborda também noutra canção, a “Que mulher é essa”, que começa com os versos “que mulher é essa / que eu vejo na telenovela? / as mulheres à minha volta / não se parecem nada com ela”. E depois: “será que as feias vivem todas na minha?”, “só entra a gorda para perder calorias” e “mas a preta não entra / a baixa não entra, não / a velha não entra / a torta não entra, não”. Como é que isto se resolve, esse desfasamento entre a aparência predominante da aparência ea importância de tudo o resto?
Nao sei. Acho que a partir do momento em que a escola serve para formar cidadãos e para seres humanos com profundidade, acabaremos por preparar alguns problemas. Para mim, são problemas. Escrevo essa música porque assisto, num tempo curiosamente muito cronologicamente, a owe próximo de amigas minhas. Uma é preta, outra é baixa. Por fisicamente ou esteticamente não obedecem a determinadas regras, como duas foram excluídas de algo. Não sei como se resolve, mas penso que devemos tratar este problema que temos enquanto sociedade: aceitamos tudo o que não corresponde ao nosso padrão. As marcas hoje em dia ate já estão a fazer para mostrar uma outra mulher, que não tem como medidas X, aquele rosto perfeito e super simétrico. Acho que também foram muito impulsionadas para isso pelos movimentos ativistas e sociais. Tem de haver educação e menos valorização da imagem, do que cada um usa, dos tênis que calça, do carro que tem.

Terminou o disco com “Canção a Zé Mário Branco”. É notório que se identifica com o património musical — e de intervenção musical — de José Mário Branco. Sente-se herdeira, discípulo, alguém que dá continuidade a esse património?
Não se dou continuidade. Se me sinto herdeira, sinto. Todos nos devíamos sentir-nos herdeiros. É uma herança, uma preciosidade o que o José Mário Branco nos deixa, quer em canções quer em outro tipo de manifestos. Somos todos seus herdeiros.

Quais são as expectativas que tem para a recepção nesta discoteca? É um disco no qual notoriamente investiu muito de si. Além de conseguir ter um disco como este nas mãos, que tipo de outras recompensas gostaria de ter? Concertos, mas gente a ouvi-la?
Vou ser mentirosa se disser que não esperamos sempre isso. Isso é isso que nós somos um disco: que todos nós esperamos, que as pessoas espectáculos se sentem ao que aquiloiram ao ser a ser procurado. Também gostava muito de ouvir as músicas na rádio — não só as minhas, há muitos projetos que você conhece pelo mundo do Spotify, portugueses, que nunca ouvi em nenhuma rádio em Portugal. Adorava que como rádios dessem mais oportunidades, que não estão ainda muito bem estabelecidos, que não têm o apoio lobbies negociou e editou que sustentam como listas de reprodução dos rádios. É muito difícil ouvir Durante duas horas uma rádio e aparecer alguém de quem nunca ouviu falar. Gostava que pit um bocadinho diferente, não só pela minha música mas pela música de muita gente de valor que compõe e nunca tem espaço radiofónico.

Já teve convites para escrever para outros, já teve que interpretar a pedir-lhe canções?
Já escrevi muito para fadistas, para estas fadistas da nova geração. Para a Sara Correia, por exemplo, já escrevi um fado. Já escrevi alguns para a Maria Emilia e já escrevi outros para fadistas que não são tão conhecidos. E gosto muito de escrever para outros, mas neste momento… quando escrevi a Sara Correia não a conhecia, a no dia do lançamento da discoteca, fuja do cumprimento-la nossos bastidores. Agora só me apetece escrever quando conhecer a pessoa e quando posso escrever alguma coisa que aquela pessoa possa dizer com propriedade, sendo em simultâneo um texto que me deixe confortável. Tem de ser sempre um owe em um. Não faz sentido pôr um texto mais politizado na voz de pessoas cujo perfil de artista não segue muito essa linha. E também não me interessa escrever só sóbrio amor, sóbrio novos itens [risos]. Posso escrever mas tenho de ter ligação em pessoa. Gosto muito de ter convites, e tenho tido a alguns — não vou fazer referência a nomes porque acho que não devo —, mas tenho que sentir alguma identificação com uma pessoa e sens que tenho alguma coisa para lhe dar com uma letra.

Acharia socialmente interessante ter cada vez mais mulheres, no fado, a escrever canções para outras mulheres e para homens também? Historicamente no fadotavam o contrário: sobretudo homens que escreviam as letras que as fadistavam.
verdade. Acho que a fé de Manuela de Freitas é muito importante, abriu-nos território a muitos de nós — ate credibilizando a voz da mulher nisto. Fé importante.

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