‘Espero continuar enquanto der’: maestrina de 95 anos conduzindo coral em SP – 23/04/2022

Com dedo em riste e sobrancelhas arqueadas, a maestrina Hugueta Sendacz, 95, explicava ao público a origem do hino dos simpatizantes, a resistência judaica ao nazismo. Sua fala, seguida de uma apresentação do coral que rege, foi o momento áureo das celebrações do Levante do Gueto de Varsóvia que acontecem todo ano na Casa do Povo, no centro de São Paulo. A festa aconteceu na última terça-feira (19).

De vestido e meia-calça pretos, Hugueta encolia o corpo conforme a música mais lenta e baixa. Depois, crescia para os lados e para cima, quando o cântico ganhava ritmo. Foi ela quem comandou a noite, ora entoando um discurso — fazendo muitos na plateia lacrimejarem —, ora transmitindo ternura e leveza ao esquemat or coro de 11 vozes cantando in iídiche.

“Nunca digas que esta é a sua última caminhada”, traduziu Hugueta. Ela contorno para cerca de 200 pessoas que o hino for composta por Hirsch Glick, jovem poeta lituano. Glick foi colocado entre os campos de Vilna, para onde foram levados os campos antes de se concentrar e os campos de concentração.

“O pegou o espírito da luta, as mãos da compositora”, de lutar com a maestrina dias antes, em entrevista ABA.

A sonoridade do hino regido por Hugueta é estranha aos ouvidos brasileiros. A língua judaica iídiche, hoje restrita a comunidades judaicas, sobrepões traços do alemão, do hebraico e línguas eslavas.

Em 19 de abril de 1943, o círculo do décimo sétimo combatentes fez Gueto de Varsóvia pegaram em armas para impedir que o exército Nazista seguisse com as deportações. Menos de um mês depois, a insurreição foi massacrada pelo exército alemão.

A festa de terça-feira traçou um paralelo entre o cântico dos perseguidos e os levantes negros, que a Casa do Povo abriga temporariamente o acervo da Casa Sueli Carneiro, filósofa e escritora antirracista. To oradora Faith Lucia Xavier, que há três mulheres há décadas atua em defesa dos direitos das negras.

Imagem: Fernando Moraes/UOL

De tijolo a tijolo

A história de Hugueta mistura-se a uma pequena comunidade de Ret que foi morar no bairro do Bomiro. O fotógrafo Bob Wolfenson, 67, cresceu ness ambiente. Para ele, Hugueta Sendacz é “tia Hugueta”.

Bob morava com seus pais no mesmo edifício onde viviam Hugueta e seu marido já falecido, José Sendacz. O apartamento à mãe da maestrina

Ele descreve esse ambiente “judaico-ateu” como marcado por intensas atividades políticas e culturais. “Nossa família não era religiosa. Restava essa coisa de humanismo, de cultura”, relembra.

O fotógrafo das tardes que passa na casa de Hugueta. Quando muito pequeno, as horas brincavam com as louças dela, enquanto seus pais saíam para trabalhar.

Foi o ambiente festivo, na casa de Hugueta e José, que o marcou anos depois. “Aos sábados tinha uns aperitivos na casa deles, uns queijinhos. Eles bebiam. Era um lugar muito animado, cheio de conversa.” Ele via em Hugueta e em todos os que frequentavam o círculo bastante ativismo.

“Era uma casa frequentada por muitos amigos. Ali eles resolveram todos os problemas do mundo”, comentou Hugueta rindo, com alguma ironia. Hugueta fazia parte de um grupo de teatro, onde era atriz, figurinista e tradutora das peças do iídiche ao português. Ela e seu marido foram donos de uma fábrica de roupas; José cuidava do administrativo e Hugueta da criação. Ela conta que estava sempre no aeroporto para ver “o pessoal chegar chique, elegante, [bem] vestido” — e ressalta que procurava apenas como tendências, não copyar modelos estrangeiros.

Aos 95 anos, Hugueta Sendacz rege coral na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Havia muitas organizações judaicas de esquerda no Bom Retiro, durante sua infância. Quase no fim da Segunda Guerra Mundial, um de seus membros decidiu apostar que, se os russos chegaram a Berlim, ele doaria 500 contos de criação de réis para a criação de um monumento às vítimas do Holocausto.

“Ainda nem se falou a palavra ‘holocausto’ não naquele tempo. Durante muitos anos a gente sabia dessas coisas, apenas começava a se saber”, re-abraçou Hugueta.

A ideia era criar um monumento vivo, “não uma estátua ou um obelisco, que não tem sentido”, reflete isso. Aboutta era erguer uma casa com um coral, uma escola, um teatro, para dar sequência à cultura que os nazistas tentaram exterminar.

O dinheiro do povo criado serviu apenas para a compra do terreno e os membros do movimento da Casa do Povo começaram a levantar fundos para construir o espaço. Hugueta, com 21 anos em 1947, grávida de 7 meses, era quem ficou na barraca, vendendo os tijolos. “Todo mundo queria contribuir. Todo mundo perdeu parentes lá na Europa.”

Hugueta Sendacz, 95 anos, coordena um coral iídiche na Casa do Povo, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Dos fascismos às ditaduras

Naquela época, Getúlio Vargas governava o Brasil com uma forma autoritária e uma posição antissemita. Eram os anos em que circulava o Plano Cohen, documento que circulava entre os militares e que supostamente trazia o passo a passo para uma “revolução comunista”.

As pessoas eram proibidas de se aglomerar nas ruas, inclusive para conversar, relembrar a maestrina. “Eram, no máximo, três. Se parassem e começassem a conversar, eram logo presos e iam para o Dops”, o Departamento de Ordem Política e Social. Apesar dos tempos, as atividades políticas e culturais da comunidade não pararam. Para serem realizadas, foram autorizadas autorizações no Dops mediante autorização do iídiche.

Já pendente a ditadura militar, pós-1964, a fé da Casa do Povo ainda mas impactada. O coral, o grupo de teatro, o jornal Nossa Voz, atividades abrigadas pela casa, foram encerrados. “Alguns associados foram detidos”, afirma.

Hugueta não se registrou se houve um comunicado oficial, ou uma visita de algum militar. “Na prática, não precisou nem vir ordem escrita nem nada. Era uma época de terror.” A maestrina se resolveu a comentar os nomes.

A partir da década de 1980, como comunidade de Judaica dispersa por outros bairros, a Casa do Povo passou a enfrentar dificuldades. “Costumo dizer que o Coral Tradição manteve a Casa do Povo cantando. Eu acho bonita essa ideia de que o canto pode manter uma instituição”, diz Benjamin Seroussi, 41, diretor executivo da Casa do Povo.

Hugueta Sendacz, 95, ao piano.  Ela coordena um coral iídiche na Casa do Povo, em São Paulo - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Um coral para o futuro

O envolvimento de Hugueta com as artes começou cedo. Aos seis anos, ela fé matriculada no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, na República. A diretora do conservatório designou uma jovem adolescente para introduziri-la ao piano.

Fé aí que, agora mas tarde, já adolescente, passou a frequentar os nossos cursos de história da música de Mário de Andrade. Hugueta o descreve como um homem “elegantérrimo”, “impecável”, e “um profundo conhecedor de tudo que é cultura que existe”. Quando foi sua aluna, ele havia recém-regressado de sua pesquisa musical pelo Norte e Nordeste.

Os seminários eram quase diários, com Mário de Andrade sentado à cabeceira de uma mesa comprida na biblioteca do conservatório. Ela sorri, ao comentar que há poucos dias reencontro a arquivo da aula que teve de apresentar aus 14, 15 anos, a história da música medieval, incentivada pelo ilustre professor.

Hugueta já duração regência mais velha, enquanto o Coral Tra. Os atividades a fim de anos da Casa do Povo, transferiu as atividades. Hoje, o Coral tem entre 10 e 12 pessoas, entre os jovens e os não judeus. Todos, garante a maestrina, cantam em iídiche perfeito.

Lídia Nobel, 80 anos, é nascida na Argentina e há 13 anos faz parte do coral. Quando começou, não sabia nada de canto. “Vou acompanhar de ouvido, e Hugueta anima muito o coral.” A pandemia impõe desafios: uma sincronização das vozes por vídeochamada fica difícil, devido ao atraso de algumas mensagens. “A Hugueta fez questão de fazer os encontros via Zoom.”

Com a relativa melhora, o Coral conseguiu realizar três ensaios presenciais para a celebração do Levante do Gueto de Varsóvia. Hugueta explicou tem em seu repertório 120 músicas, músicas, músicas populares, músicas de ninar, músicas folclóricas, músicas de festa, músicas satíricas, músicas de protesto e músicas sobre o Holocausto. E garante, risonho: “tem um outro tanto sendo preparada”. “Estamos voltando à ativa, com tudo! E espero continuar enquanto der”, diz a maestrina, para quem parece ser inconcebível separar música, vida e política.

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