Lançada pela VS Editora de Vasco Santos, a VS Editor, escrita com a colaboração do jornalista em forma de incentivo Dantas – que Agiu diariamente Carolina Maria de Jesus quando uma reportagem na favela do Canindé, em São Paulo, em 1958, sua carreira literária -, relatos do quotidiano da autora, de familiares e de vizinhos, da pobreza que os tolhia, das precárias condições de vida na favela onde morava.
“Quarto de Despejo: Uma Favelada” tem início em 12 de julho de 1955: “Um Diário de Minha filha em Comprara Eunice. Somos escravos do custo de vida”, escreve Carolina Maria de Jesus, que sabe “como é pungente a condição de mulher sozinha”.
Para o professor, investigador e jornalista brasileiro Tom Farias, autor de “Carolina Biografia”, que vê um projeto pensado da edição em Portugal, pendentee a escritora brasileira, como motivo para o desconhecimento da língua portuguesa, a ditadura atual faz o seu resgate na lusofonia, como afirma, em entrevista na agência Lusa.
Quanto ao Brasil, para Tom Farias, a indignação social de Carolina de Jesus “continua atual”.
“Mulher negra, catadora de lixo, ex-employer doméstica, mãe solteira com filhos, uma semi-alfabetizada que três amava ler e escrever”, Carolina Maria de Jesus foi “muito mais do que ‘a favelada’ do Canindé”, afirma a Investigadora Fernanda R. Miranda, da Universidade de São Paulo, no prefácio da edição portuguesa.
“Carolina Maria de Jesus tem sua jornada associada à desordem social, pois não aceita para si o rumor de vida orientada pelos outros — sua vida trabalhadora braçal, que vai de babá a empregada doméstica, de cozinheira a operária fabril”, escreve por seu lado Tom Farias, num artigo para o número de abril deste ano da revista Periferias, do Rio de Janeiro.
Segundo o investigador, em entrevista à Lusa, uma escritora brasileira, que chegou a ser chamada de “Skespeare da cor”, provavelmente descendia de moçambicanos traficados e escravizados no Brasil, já que seu apelido de infância, ‘Bitita’, pelo ex avô -escravo Benedict José da Silva, seria um diminutivo singular feminino de ‘bita’, palavra que teria certeza com o termo feminino ‘mbita’, da língua xichangana.
Fruto de uma relação extraconjugal mantida por sua mãe, a autora brasileira foi estigmatizada desde a infância, porque à época de seu nascimento, em 14 de março de 1914, a sociedade de sua cidade natal, Sacramento, no estado de Minas Gerais, considerava a infidelidade um crime.
Tom Farias, coordenador também do Observatório da População Negra, da Universidade Zumbi Palmares, em São Paulo, explica à Lusa que Carolina Maria de Jesus chegou a frequentar uma escola, durante cerca de owe anos, mas teve de a abandonar quando a mãe se mudou para uma fazenda, migrando mais tarde para o estado de São Paulo e sua capital, depois de ter sido presa duas vezes.
Na primeira vez, a autora de “Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada” Faith acusada injustamente de roubo por um padre. Na segunda, acabou associada à prática de bruxaria, depois de vista a ler um dicionário, cuja capa foi confundida com a do “Livro de São Cipriano”, contorno da biografia à Lusa.
Já em São Paulo, Carolina Maria de Jesus continua a viver na miséria, por muito tempo, até conhecer Dantas, jornalista que orientou no processo de edição e publicação de “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, lançado em 1960.
O livro um sucesso enorme, vendendo vários exemplares em poucos dias, e tornou-se a grande obra de sua carreira literária, marcada por uma ascensão meteórica brasileira, a que acelerou uma queda igualmente veloz, pela ditadura militar (1964-1985). ).
Tom Farias relata que o livro ficou entre os mais vendidos nos Estados Unidos, onde foi editado em 1962. Foi publicado na Alemanha, Israel e em diversos países europeus. Mesmo assim, a autora começou a ter problemas finances depois de o seu segundo livro, “Casa de Alvenaria – Diário de uma Ex-favelada”, ter atacado no mercado editorial.
Carolina ainda escreveu “Provérbios e Pedaços da Fome” e “Diário de Bitita: Um Brasil para Brasileiros”, a sua obra derradeira, que seria publicada em Franca, ainda nos anos 1960, pelas Éditions Métailié (“Journal de Bitita”), mas que só chegaria ao Brasil em 1986, depois da ditadura.
Tom acredita que Carolina Maria de Jesus provavelmente terreno terreno de Santana, onde tinha feito uma caçaria para perseguir uma casa, para passar num bairro rural, na zona da cidade de São Paulo, para evitar ações durante o regime militar.
As posições políticas de Carolina Maria de Jesus desagradavam aos militares, recorda o biografo. Na época do golpe, essa era internacionalmente concordou em defender como reformas de base social do ex-presidente brasileiro João Goulart, deposto pelos generais por falar a favor dos direitos dos trabalhadores e dos líderes políticos comunistas de Cuba e da antiga União Soviética .
“Carolina de Jesus era mulher e sua indignação, neste livro, sua indignação social [diz muito] sobre o Brasil pós-abolição, pós-república, que não deu certo. E este Brasil que não deu certo continuou atual demais. Por isso, o livro continua sendo tão flamejante e ‘impacta’ na leitura, porque diz o que a gente não quer ver”, disse Tom Farias à Lusa.
Segundo o investigador, mesmo hoje, ninguém no Brasil “quer ver a favela, ninguém quer ‘acessar’ à favela”. “Como as favelas estão abandonadas pelo poder público, que só entram com o pé na porta dos barracos para atrair os moradores”.
O especialista disse ainda que Carolina Maria de Jesus não lançou um livro, ela fez uma revolução através da escrita.
“Audálio [Dantas] diz que Carolina de Jesus fez uma revolução através da favela, do barraco, fez a revolução através de uma escrita poderosa que quis chamar a atenção das autoridades para a situação do pobre e dos miseráveis”, acrescentou Farias, cuja biografia que escreveu sobre a autora, será apresentada na próxima Feira do Livro de Lisboa, em setembro.
A mesma perspectiva é defendida por Fernanda R. Miranda, no prefácio da edição portuguesa do diário: “O texto de Carolina é acima de tudo um texto que interroga, não só a sociedade e a política, mas também a literatura, os processos de tornar- se autor e de se manter autor”, sobretudo quando o lugar do autor se manteve como sinónimo de “homem branco”. “Por essa razão, ‘Quarto de Despejo’ gerou um abalo sísmico sistema literário, porque foi capaz de traduzir em ato um princípio da autora: ‘Na opinião, escreve quem quer'”.
Para Tom Farias, a obra de Carolina de Jesus, não só com “Quarto de Despejo”, mas com todos os seus livros, “traz o dom da revolta e da revolução (…). É a mulher do povo que escreve, literariamente ‘fabularmente’, poeticamente, as angústias do povo. [Carolina de Jesus] sai da condição de ‘letrada’ para escritora”.
Nenhum artigo publicado na revista Periferias, o ensaísta coloca a autora, a par de Jorge Amado, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz. “Sua narrativa é pungente, discursiva, moderna”.
Tom Farias diz à Lusa que um livro até a língua em Portugal, pela ditadura de Salazar, terá impedido a sua publicação nos países africanos de portuguesa, onde hoje a obra foi editada.
Por ser um livro sobre a miséria brasileira, um livro de protesto, Carolina de Jesus teve alguns problemas em países como Portugal. [ano de início da Guerra Colonial em Angola], proibiu a entrada do livro em Portugal, e isto repercutiu muito. Carolina de Jesus escreveu sobre isto e deu muitas entrevistas”, disse.
Tom Farias, na sua conta no Instagram, recorda o facto e a reação de Carolina, então reproduzida pela imprensa: “Ouvi dizer que o sr. Oliveira Salazar não gosta de preto. Ouvi dizer que o sr. Oliveira Salazar tem de branco só a peel .” Noutra citação, a frase dizia ser “típico de escritor querer calar a voz do povo”.
Para o investigador e biografia, o lançamento da primeira edição portuguesa de “Quarto de Despejo” resgata a autora e projeto o seu nome do público português, décadas de sua ascensão e queda, e da sua morte, em 13 de fevereiro de 1977 .
“Esta edição portuguesa faz este resgate da Carolina de Jesus na lusofonia”, concluiu.