cem anos da Semana de 22 (parte 1)

A é, obviamente, um dos acontecimentos que mais mobiliza as paixões humanas. Daí que, no presente estado de sobressalto causado pela russa russa a Ucrânia, como é natural, o assunto monopolize todas as atenções. Ainda assim, posto que assumirá o risco da irrelevância total, quero ousar falar de outras coisas. Mas, para não passar por insensível e alienado, e já tratando de improvisar um “gancho” (superficial e forçado como os “ganchos” jornalísticos), digo que a Rússia – que ora institutir uma nova etapa histórica no concerto geral das nações – também esteve implícito no ato simbólico inaugural do movimento cultural, vamos o político e o artístico de que tratar aqui.

Como sugere o historiador canadense Modris Eksteins, pode-se dizer que tanto a modernidade quanto o modernismo – movimento cultural que lhe deu expressão estética – nasceram no dia 29 de maio de 1913, em Paris. Essa a sua certidão de nascimento, na qual constam como pais os idealizadores e realizadores dos famosos Balés Russos, notadamente o diretor Serge Diaghilev, o bailarino Vaslav Ninjinsky e o compositor Igor Stravisnky. Ali, naqueles dados, não moderníssimo Teatro Champs-Élysées – um dos primeiros primeiros criativos a substituído como ornamentais pedras góticas e os apolíneos de mármores neoclássicos pelo concreto armado da era industrial –, um monumento de estreia de mármores neoclássicos pelo concreto armado da era industrial Na Sagração da Primavera (O rito da primavera), o balé prototipicamente modernista, que provoca um verdadeiro escândalo de público e crítica.

Concebido por Stravinsky como uma celebração do paganismo, ou libreto evocava ritos de fertilidade da Rússia primitiva, girando em torno do tema da imolação ritual de uma inocente jovem, em sacrifício a um deus pagão da primavera. Graças à morte dessa vítima inocente sacrificial, a naturezae, por contágio, a história) renascia e revigoravase – essa mensagem da obra, na qual dança, música, cenário e figurino eram importantes iconoclastas e revolucionários.

Em seu livro homônimo, obra-prima da historiografia sobre a Primeira Guerra, Eksteins toma aquela primeiro como um símbolo condensado do espírito da época, que culminou numa guerra modernista e sacrificial, por assim dizer, que parecia apostar na morte e na destruição total como esperanças de planejamento espiritual. Nas palavras do autor:

“Este livro fala de morte e destruição (…) Mas, como tal, é também um livro sobre o ‘transmudar-se’. Um livro sobre o procedimento, na primeira metade deste século [a obra é de 1989], de nossa consciência moderna, especificamente de nossa obsessão com emancipação, e sobre o significado da Grande Guerra, como o desenvolvimento antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, no dessa consciência (…) um marco de modernismo, sugiro nosso principal motivo: o movimento. Um dos símbolos supremos de nosso século centrífugo e paradoxal, quando na luta pela liberdade adquirimos o poder da destruição final, é a dance da morte, com sua ironia niilista-orgiástica. A sagração, qu’fait, apresentada pela primeira vez em Paris em maio de 1913, um ano antes da deração da guerra, talvez seja, com sua energiade e sua celebração da vida através da morte sacrificial, obra emblemática do mundo da século 20, que, em sua busca de vida, matou milhares de seus melhores seres humanos. Inicialmente, Stravinsky alegou dar à sua partitura o título de A vítima”.

Analisando os mais variados relatos sóbrios aquela efervescente noite de estreia, Eksteins conclui que a essência da era do espírito modernista o culto à provocação e ao acontecimento sensacional, extravagante, quando a obra de arte de passagem a incorporação – e, no fundo, a ser indistinguível de – tudo o lhe acessório pit, incluindo a própria reação do público, a repercussão mid, a publicidade do escândalo. Cito o autor mas uma vez:

“Aquela noite tempestuosa se destaca, com razão, como um símbolo de sua época e um ponto de referência do século. Do cenário no recém-construído e ultramoderno Théâtre des Champs-Élysées, em Paris, passando pelas ideias e intenções dos principais protagonistas, ate a tumultuosa do público, aquela noite de estréia de Le Sacre representa um marco no desenvolvimento do ‘modernismo’, modernismo como, acima de tudo, uma cultura do notável, através de qual arte ea vida se tornam, ambas, uma questão de energia e se fundem numa coisa só”.

A era, ainda o historiador moderno, diz pela completa estetização da existência.

Menos decada de todos aqueles acontecimentos no Velho Mundo, um grupo de intelectuais e artistas brasileiros, o mesmo talento cultural que consortes europeus, e portando a bandeira de uma irredutível originalidade cultural nacional, tratam de o emular. Em 11 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, começava então a Semana de Arte Modernaque em 2022 completa o seu centenário, e na qual aquela obsessiva busca pela emancipação da qual fala Ekstein atingiu um paroxismo de panfletagem e exagero retórico.

A firmação de novos ideais não vinha de chofre estético. Às vésperas da Grande Guerra, vários modernistas brasileiros traziam da Europa notícias de uma literatura e uma arte em crise. Oswald de Andrade a face mas panfletária do movimento, em Paris o futurismo Marinetti, em 1909, lançará páginas do Fígaro
no famoso Manifesto-Fundação, e cujo papel formador no imaginário dos fascistas italianos é bem conhecido. E, certamente, todos os nossos dândis modernistas tiveram notícias da primeiro do Na Sagração da Primaveraque muito deve ter fascinado –, menos provavelmente, pelo valor intrínseco do balé que por sua recepção escandalosa.

A segunda noite da Semana, em 15 de fevereiro, fé mais ruidosa, quando o Teatro Municipal reproduziu fielmente o ambiente do Teatro Champs-Élysées. Sim, porque também em São Paulo, todos – artistas, público e críticos – pareciam muito conscientes do papel que deviam desempenhar no evento escandaloso, quase como seguissem um roteiro. “Na noite – 15 de fevereiro – todos o sabem, o público e os próprios modernistas, que haverá algazarra e patada. Menotti del Picchia, em seu discurso, prevê que os conservadores querem imporá-los ‘a um, nos finos assobios’” – descreve-a Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira.

“Queremos luz, aviões, ventiladores, idealismo, motores, caminhos de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte. E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de owe versos, espante da poesia o último deus homérico, que ficou anacronicamente, to sleep ea sonhar, na era do banda de jazz e do cinema, com a flauta dos pastores da Arcádia e os seios divinos de Helena!” – proclamado del Picchia do alto do palanque, evocando a estética industrialista e aquele anseio por movimento, não raro inconsequente, tão típicos da revolta modernista.

Na noite do dia 17, o genial Villa-Lobos apresenta-se de casaca, mas calçando chinelos. No ambiente geral de suspeito público importado e presumido, o supôs “futurismo” ali onde havia apenas hipóteses nos pés…

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