Caos ambiental conduzindo ficções pop no teatro brasileiro – 27/04/2022 – Ilustrada

Gotas caem sobre um corpo nu, molhando a pele de um ser misterioso que, ora está num matagal, ora num oceano profundo. A cena, do curta brasileiro “A Gota D’Água”, de Mathias Reis, faz referência a convulsões hidricas é exibido no 2º Festival Internacional de Ecoperformance.

Com início nesta quinta (28), com versões online e presenciais, o evento reúne obras que expõem embates entre o homem e a natureza. A mostra, organizada pelas companhias Satyros e Taanteatro, surge em meio efervescência de peças paulistas uma inclusão à temática ambiental, como aponta uma agenda de chá dos últimos meses.

Histórias sóbrias mudanças climáticaságuas poluídas, poluição comprometida, extinção de bichos e riscos a flora têm servido de fio condutor de peças e performances nacionais.

Peças como “Terremotos”, de Marco Antônio Pâmio“A Turma da Floresta Viva”, de Cristiane Natale e Guilherme Carrasco, “Atemporal”, de Rogério Gomes —as três em cartaz—, “Chernobyl”, de Bruno Perillo, “Altamira 2042”, de Gabriela Carneiro da Cunha, “Encantada” de Lia Rodriguescom três temporadas já encerradas, e “Vozes da Floresta – Chico Mendes Vive”, de Lucélia Santos, em cartaz da sexta, são exemplos desse filão teatral que vem crescendo no país.

No Ecoperformance deste ano, que traz 48 filmes de 17 países, o Brasil surge em obras como “Eco(ar) – Voz em Estado de Derramamento”, do Coletivo Membrana, “Ynstalação Cabokètykas: Corredora”, de Pedro Olaia, “Sethico” , de Wagner Montenegro, e “(In)flama o coração da América do Sul”, de Mari Gemma De La Cruz.

Para a idealizadora do Ecoperformance, a coreógrafa Maura Baiocchi, contudo, a presença do tema nas artes cênicas do país ainda caminha a passos lentos. “Tanto o teatro quanto a dança são bastante centrados em dramas psicológicos. São muito antropocêntricos”, diz ela.

Ao mesmo tempo, ela vê o crescimento recente de espetáculos inseridos na temática como forma de estimular uma conscientização ecológica do público. “É um assunto para ontem. Não deveríamos limitar-nos aos jornais, fóruns políticos, ou palestras de slides cheios de números e gráficos.”

É o que faz, por exemplo, “Altamira 2042” ao reproduzir sons da região do rio Xingu, na bacia amazônica, e iluminar o palco com núcleos predominantes do local. A peça é uma crítica na polêmica hidrelétrica de Belo Monte, construída em 2011e enfoca os povos ribeirinhos e indígenas que vivem nos arredores daquela área.

Contextos brasileiros também aparecem em “Vozes da Floresta – Chico Mendes Vive”, com vídeos inéditos do líder seringairo que dá nome ao espetáculo e cenas de conflitos agrários da Amazônia brasileira.

Não é só no Brasil que os artistas estão olhando com mais ênfase para o assunto. Longas hollywoodianos recentes como “Nao Olhe Para Cima“, por Adam Mcay, visto por muitos como uma allegoria sobre o K global, e “Moonfall — Ameaça Lunar“, de Roland Emmerich, diretor conhecido por suas tramas apocalípticas, dialogam com a questão.

Ainda assim, muitos ambientalistas se preocupam com a forma como o tema costuma ser tratado. Prova dissolvida um manual para “escrever roteiros na era das mudanças climáticas” que a organização Good Energy lançou há semanas, reunindo conselhos de cientistas e artistas sobre como retratar as questões ecológicas na ficção.

“Há um consenso sobre a ciência do clima, mas não sobre as histórias sobre ele. Não há precedentes para isso, o que é emocionante e perturbador”, afirma um desses vários textos. “Como ainda há poucas histórias.”

“Estereótipos como o rabugento do clima, o ambientalista ingênuo, ou o cientista nerd”. “Mostre que um estilo de vida com baixo carbono pode ser sexy”. “Lembre-se que a crise climática não precisa aparecer apenas em tramas apocalípticas, mas também de comédia e fantasia”. Essas são algumas das “dicas narrativas” que constam no manual.

A última delas, alias, ecoa uma crítica recorrente dos ambientalistas. Segundo vários deles, retratar crises ecológicas como apocalípticas distância ou urgência do assunto e ignorar nossos problemas do agora.

“Uma história apocalíptica, onda [os personagens] não salvamos e tudo está perdido, desmobiliza as pessoas”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Ela afirmou que cars como a do Good Energy, que planejam “um modelo ideal de obras” tocarem num assunto, não limitam a criatividade e são relevantes para o avanço da causa ambiental. “Acho isso extremamente importante. Não são regras. São apenas dicas que, inclusive, mostram como o tema pode ser atrativo para os artistas.”

Mas há quem existem de manuais ativistas, no entanto da existência de campos artísticos. Éo caso de Marco Antônio Pâmio, diretor de “Terremotos”, espetáculo por Paloma Bernardi e Virgínia Cavendish que traz uma história de três irmãs que vivem num mundo e sofrem como consequências do resgate global.

“Acreditar que uma obra tem o poder de convencer a fazer qualquer coisa é perigosa e arriscado”, diz ele. “Quer provocar reflexão é saudável, mas importa dogmas, não.”

“‘Terremotos’ é uma peça que tem otimismo, mas também tem uma voyageória extremamente sombria”, continuou. “Mas o pessimismo é, sim, legítimo. A arte não tem obrigação de ser panfletária.”

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